Final de novembro de 2005.
Final de tarde.
Ao meu lado, meu pai, meu primo e um amigo de infância meu.
Fiquei na ponta deste grupo.
Estava na arquibancada frontal. No máximo acima uns 5 degraus.
Dentro de campo uma confusão enorme.
Lembro que eu berrava: "Bate Kuki, Bate Kuki!".
Então num gesto institivo da torcida, começamos a nos dar as mãos.
Era o que poderíamos fazer pra ajudar.
Desconhecidos apertavam as mãos uns dos outros como se fossem irmãos ou amigos de longa data.
Uma linda demosntração de carinho pelo Timba.
Pena que era o silêncio antes do temporal.
Já que eu estava na ponta, acabei segurando a mão de um senhor. Já com seus 70 anos nas costas, com uma almofada com um escudo do Náutico para sentar (que ele prendeu entre as pernas para livrar as mãos).
Vi nele muito mais angústia do que em mim. Afinal, ele já passou por muito mais do que eu com o Timbu.
Lembro que enquanto a polícia expulsava os invasores do campo e o juiz reorganizava as coisas, eu olhei para ele e pensei "esse senhor viu o hexa, o vice da Taça Brasil e hoje está aqui, sofrendo numa série b...".
Pronto minha angústia ficou ainda maior.
E Ademar cobrou o pênalti...
Assim que a cobrança aconteceu, o senhor soltou de minhas mãos e caiu de joelhos.
Chorava de soluçar.
Eu e a pessoa que estava segurando a outra mão dele nos abaixamos e o convecemos a levantar.
Ele não quis mais ficar ali, e mesmo com o jogo ainda indefinido, com 15 minutos por jogar, ele seguiu desolado em direção à saída do estádio.
A pior imagem que guardei dos Aflitos até hoje.
Muitos podem negar, mas depois deste dia o Náutico entrou num trauma.
Seja lá que jogador estiver no campo, a imagem daquele jogo pesa.
Se bem que A Batalha dos Aflitos serviu também como um marco para o clube.
A partir daquele dia, da humilhação, de ser chamado de "time de covardes" em rede nacional, das chacotas até hoje ouvidas pelos rivais... A partir daquele dia nós resolvemos nos tornar grandes.
Quem não quis, queimou a camisa, xingou e esqueceu do clube.
Quem amava de verdade se viu ferido e com um instinto de vingança, não só do Grêmio, mas de todos que vilipendiaram o Clube Náutico Capibaribe.
Hoje o Náutico não é nem a sombra daquele de 2005. Cresceu.
Mas ainda faltava um trauma a resolver.
E o destino se fez majestoso. Quem resolveu a parada foi o Colorado Ronaldo Alves.
A festa da torcida foi muito mais do que a vibração de um gol.
Um peso saiu das costas. Alguns menos, outros mais. Não há como negar.
O trauma foi expulso! Xô Satanás!
E o senhor que caiu de joelhos em 2005, onde estiver, hoje está feliz.
Calejado, mas feliz.
NÁUTICO ACIMA DE TUDO!


Um comentário:
Belissimo comentário Juliano, Me arrepiei cara, Acho que vc expressou o sentimento de muitos alvirrubros, Naquele minuto 46 do segundo tempo.Nós Alvirrubros não queremos muito não, Não queremos um time de estrelas não, Apenas um grupo que honre essas cores maravilhosas, Que repitam a raça e gana de ganhar desses jogadores de ontem.Com dor, Com cansaço fisico e mental,Contra um time superior fisicamente e tecnicamente.Mas um grupo que não desistiu em minuto algum, Parabéns Náutico, Parabéns Alvirrubros de todo o mundo, Parabéns Guerreiros.
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